Quarta-feira, Setembro 20, 2006

66. drama

Eu sempre fui dramática. Sempre. Em intensidades diferentes durante os anos. Mas sempre fui. No começo, acho que como todo mundo, inconscientemente e depois de um certo tempo e um certo tapa-com-luva-de-pelica de uma ex-amiga - que não virou ex por causa disso, foi por outra coisa - ficou consciente. Que eu era dramática. Não o grau. O grau de dramaticidade que a gente carrega dentro da gente só dá pra medir depois de um tempo. Por análise comparativa, meu amor.

E te digo, eu fui muito dramática.

Eu continuo sendo. Não tenho muito problema com isso. Encaro até numa boa. E em certas coisas inclusive ajuda. Fazer um draminha básico em algumas situações reverte as coisas pro seu lado. Mas tem que saber usar. Não é fácil usar drama sem parecer chata. Aí entra a consciência e o grau. Se você passa dos limites perde o poder de ação. Perde a atenção dos outros. Aquela coisa toda de perder a razão. Aí esquece. Porque ninguém gosta de dar bola pra gente dramática. Dá quando não nota bem o drama. Quando nota manda à merda.

Eu já fui muito mandada à merda. Sem nem notar. Porque quem manda um dramático à merda, meu amor, não manda na cara. Porque senão o ser faz mais drama. Quem manda um dramático à merda simplesmente o ignora. Ou diz que vai fazer o que o dramático diz e não faz. Claro. Porque não tá afim, porque não tem interesse. Até eu lido com dramáticos assim.

Mas tem uma coisa pior pro dramático do que ser mandado à merda. É dizer pra ele que ele é dramático. Mesmo que ele saiba. É o fim. Desabamento de mundo. Desmascaramento. Pros que sabem da sua condição é perder poder. E uma espécie de ofensa. Porque todo mundo que se sabe dramático esquece disso e é como ser apontado como é infrator. Passou da linha. Já quem não tem noção fica puto porque não aceita. E faz mais drama. E acredita que o mundo acabou e que aquela pessoa cruel está o julgando da forma mais terrível e desumana possível. E vai ficar mal, porque essa é mais uma oportunidade perfeita pra se fazer drama. Mesmo que ele não saiba conscientemente disso.

Hoje mesmo eu fui chamada de dramática. Nem acho mais que eu sou tanto. Mas fui. E por alguém nem tão próximo. Que riu quando disse. E eu passei direto na conversa, como se ela nada tivesse dito. Mas ficou. Claro. Bateu. Porque bate, meu amor. Tanto que eu tou aqui, horas depois, escrevendo um texto sobre isso. Já cogitei milhões de coisas que eu poderia e ainda posso fazer.

Uma é deixar pra lá. Que já fiz, na verdade.

Outra é mandar ela tomar no cu. Mas, apesar do prazer da coisa, não adiantaria nada. Eu estaria reforçando a acusação.

Eu poderia dar uma cotovelada no nariz dela e ver o sangue escorrer pelo chão metálico do ônibus, rindo. Mas ia ser difícil ter que conviver com ela diariamente depois disso.

Ou poderia escrever um post pra fazer o drama que eu quiser, anonimamente, e me divertir muito com isso.

Pronto. Agora chega que meu chá de cidreira vai esfriar.

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