Acho que minha sina é conquistar leoninas. As. Mulheres. Acho mesmo. Porque eu sempre fui maltratada pelas leoninas. Sempre. E aí eu me canso, porque eu não sou de fazer esforço por quem não merece. E aí elas vêm, fofíssimas, cheias de amor. Só que, como eu disse antes, eu me canso. E quando eu canso, eu canso.
Não é uma questão de birra, meu amor. É desilusão, sabe? Não tem brilho que aguente. Então não dá pra fazer milagre.
Minha vó é leonina. Passou a vida toda me esnobando. Sempre fez tudo pela minha irmã e me esnobava. Não é coisa de neta enciumada não. Minha irmã sempre foi a preferida entre os netos. É até hoje. Tanto que elas se falam quase todos os dias mas ela quase nunca me liga. Só que quando eu era criança eu ligava, ficava sentida de não fazer parte. Mentira. Ou melhor, quase. Porque eu ficava sentida, mas não muito, porque eu sempre fui assim meio desencanada. Nunca dei muita bola pra problema. Mas ela me excluía. Aí eu desisti. Perdi o tesão. E foi quando ela começou a vir atrás. Só que daí não tem mais jeito. Sem tesão não há solução. Hoje ela sempre que me vê ou fala comigo faz aquele jogo do você-não-se-lembra-nunca-da-sua-vó e me faz agrados. Só não tem a mesma graça que teria quando ainda tinha brilho.
Agora apareceu outra leonina na minha vida. A dona do curso que eu faço. Aquele, lembra? Caro. Com a dona surtada. Então. Ela já tá na minha vida há algum tempo, diga-se de passagem. Quase dois anos. Só que eu tava naquela onda de tentar chegar, de curtir o brilho. E não rolou, daí cansei.
Na verdade juntou tudo: minha falta de dinheiro pra continuar, mais minha falta de tempo, mais uma ausência que eu ia ter que fazer de dois meses por causa de uma viagem, mais uma certa exaustão do curso que não tava saindo do lugar.
Aí juntou essas coisas com a falta de resposta à comunicação que eu tentava estabelecer. Foi aí que cansei. E, claro, que foi quando eu cansei que ela resolver me olhar. Voltei de viagem e ela me ligou no dia seguinte, sem eu nem ter falado com ninguém ainda. Queria falar comigo. Queria que eu trabalhasse pra ela em troca das aulas. Me ofereceu mais aulas do que eu tava recebendo. Aceitei. Tava dura mas tava ainda sem agenda.
Só que já vai fazer um mês que eu tou lá, de segunda à sábado, trabalhando muito. Só ganho em dinheiro a grana da condução. O que, claro, meu amor, não dá pra mais nada além da condução. E ela agora me ama. Diz que casou comigo. Acredite. E disse que quando eu acabar aquilo me quer lá como secretária dela.
Só que agora perdeu o brilho. Perdeu. Cansei. Na viagem pensei nisso. Pensei que o ciclo já tinha se esgotado. E me empolga menos ainda tudo isso por saber que eu tou fazendo um trabalho que eu sei que eu sei fazer bem - pois afinal foi nisso que eu me formei - mas que não foi o trabalho que eu escolhi pra ser o meu, pro resto da minha vida - escolha essa, inclusive, que foi a responsável por eu ir parar nesse curso.
Tou me sentindo descontente, meu amor. Quase infeliz.
E tou travada. Porque o trabalho que eu comecei não acaba nunca. Porque eu tou cansada de fazer o que eu tou fazendo. Porque eu não tenho perspectiva de mudar isso se continuar na mesma linha. Porque eu quero muito fazer o que eu escolhi pra mim mas trabalhando 6 dias na semana, o dia todo, não tem Dadá no mundo que dê jeito. Porque eu preciso ganhar dinheiro porque o mundo evoluiu há alguns séculos e o escambo acabou, o cobrador do ônibus e a caixa do supermercado não sabem nada que eu possa dar em troca da passagem ou das compras. Bom, talvez até saibam, mas não é bom pros negócios.
Tou assim, meu amor. Quase-infeliz.
Digo quase porque a infelicidade é um troço muito forte pra gente ficar sentindo assim, do nada. Eu, como boa desencanada, não vou ficar muito tempo presa nisso, pode ter certeza. De duas uma: ou dou um pé na leonina ou faço essa merda florescer, que nem semente em bosta de vaca.
Só precisava esclarecer isso, meu amor. Dona Malvada agradece.
Quinta-feira, Agosto 17, 2006
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