Quarta-feira, Agosto 02, 2006

61. dinheirinho

Detesto picuinha. Acho um horror. Péssimo. Aquela coisa de raivinha enrustida, de rancorzinho guardado. Assim, no diminutivo mesmo. Pra dar a idéia exata de como são ridículas. Detesto. Principalmente em família. Quando fica um falando mal da vida do outro pelas costas dizendo que ama. Ama porra nenhuma. Quem ama fala na cara. Quem ama tem a preocupação de fazer crescer, de ajudar. Não fica com essas pequenezas, com essas boberinhas.

É, meu amor. Adivinhou. Tou irritada com a minha família.

Tem um amigo compositor que fez uma música que fala que "família é boa no porta retrato". Achava exagero mas tou a ponto de concordar. Pelo menos quando penso na minha. Porque eu saí de casa cedo. Saí com 17. Mas até hoje, por causa dessa merda de vida alternativa que eu levo, meu pai me ajuda financeiramente aqui e ali. Nada grande. Pelo menos eu não teria problema em ajudar um filho com o que ele me ajuda se eu tivesse na situação dele. Só que não é o que ele acha. E o que me mata é que ele fala nas costas. Reclama de ajudar. Acho triste gente que fala que não tem problemas em ajudar mas não ajuda de coração. Acho bem triste mesmo. Porque ajuda por obrigação é foda. A pessoa sente, sabe?

Falei agora com a minha mãe e ela contou que ele não queria que minha irmã comprasse um apartamento no nome dele. Mesmo ela pagando tudo. Ele tem medo que dê xabu e ele tenha que pagar alguma coisa. Só que não fala isso pra ela. E fica ajudando com sorriso amarelo, falando pelas costas. E ela batalhando ma erguer a vida dela.

Desculpa pelo desabafo familiar, meu amor, mas eu tou amarga. Hoje é em mim que tá dando essa raivinha. É em mim que tá batendo o rancorzinho.

Falei pra minha mãe que achava triste isso. Ela desconversa. Ela não quer se sentir culpada.

Esse é o problema, aliás. Eles não se expressam porque o ranso católico que rege a vida deles não permite que eles sejam eles mesmos porque senão eles se sentiriam culpados. Porque é pecado não ajudar a família. Só que eles não entendem que pecado maior é você detonar um relacionamento e a saúde psicológica de alguém por causa de dinheiro. Dinheiro. Essa coisa tão mundana, que as pessoas detestando falar sobre mas sobre o qual todo mundo vive.

Hipocrisia geral, meu amor.

Quem fala de dinheiro é visto como interesseiro. O educado é não falar. Mas quem fala de dinheiro fala porque sabe que o dinheiro é um aparte da vida. Fala abertamente porque não acha certo confundir o dinheiro com qualquer outra coisa. E acaba passando como mal-educado, inconveniente ou interesseiro. E essas pessoas que não falam ficam retraídas pensando e agindo na surdina, na sombra, por causa dele. E acabam sendo muito mais inconvenientes porque, com medo de serem interesseiras, se tornam mesquinhas.

Tou. Raivosa.

Minha vontade seria que o mundo voltasse pro sistema de escambo. Seria muito mais interessante. Mas esse sonho medieval não vai acontecer, então preciso me consolar que vou ter que continuar vivendo nessa sociedade hipócrita onde um puxa o tapete do outro pelas costas sorrindo amarelo. Não tenho escolha.

Vou dar um soco na parede e já volto.

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