Terça-feira, Julho 29, 2008

78. feliz-para-sempre

Estou há muito tempo sem passar por aqui. Sei lá, meu amor, a vida mudou tanto que a vontade de falar bobagens sobre o mundo deu uma murchada. Porque a gente fala muita bobagem quando não tem nada melhor pra fazer. E eu, meu amor, descobri com minha mudança de vida - e de marido - que até ficar sem fazer nada bem acompanhada é melhor do que qualquer bobagem.

Eu encontrei o amor da minha vida. Juro. Não é papo furado de quem se apaixona toda hora e acha que qualquer pessoa que aparece na frente não dá pra viver sem. Até porque, meu amor, se você já leu algum post antigo meu, você bem deve saber que as pessoas realmente passam pela minha vida. E que eu não me apego a bocas e genitálias. Nossa, que feio falar isso, né? Paus-e-bucetas parece menos esquisito do que genitálias. Parece uma pudica falando de um assunto chulo. Enfim.

O que acontece, meu amor, é que eu conheci um cara. O cara. Aquele meu vizinho, lembra? Que eu não conseguia parar de olhar. A história da TV sem botão liga/desliga. Pois é. Casei com ele. Porque ele veio, que nem naquelas histórias que a gente acredita quando é criança, todo cheio de atitude, me pediu em casamento, me assumiu com prazer, me deu o melhor sexo do mundo e todos aqueles momentos super clichês que toda mulher fala que não liga mas adoraria que acontecesse. Pediu até minha mão em casamento pros meus pais. Juro. Só faltou o cavalo branco. Então não tinha como não casar. Não tinha como deixar passar a felicidade assim, de bobeira.

Você realmente acha, meu amor, que eu não ia trocar um relacionament0-semi-aberto-light sem grande envolvimento nem emoção, por um cavaleiro real?

Vou te dizer, meu amor, mente a mulher que diz que não liga pra essas coisas. Liga sim. Ô, se liga! Porque mulher é bicho manhoso. Se faz de macho, mas é bicho fêmea. Não tem jeito. Gosta de atitude, de agradinhos, de cafuné. Gosta de sentir que amarrou o burro na felicidade.

Mas vamos separar as coisas, péra lá. Tem três tipos de homens. 1) Os que acham que essa coisa de tomar conta é machismo, que mulhere tem mais é que ser feminista e não abrem uma porta, não carregam uma sacola pesada, não fazem uma cortesia. 2) Os que acham que têm que fazer tudo o tempo todo, dominar, tratar infantilmente, como se a mulher fosse uma aleijada e não dar o direito da coitada nem pensar sozinha, nem ter vontades ou atitudes pessoais. 3) E tem os não são paternalistas, então entendem que mulher pensa sozinha, tem opinião e vontade como todo ser humano, mas também não são feministas, então são cortezes, à moda antiga, com atitude e carinho ao mesmo tempo. Os dois primeiros tipos, puros, como deve ser fácil de notar, não agradam muito às mulheres. Portanto, meu amigo, se você se encaixou num desses, sinto muito mas você está fadado à péssimas relações amorosas pelo resto da sua vida enquanto se vir assim. O negócio é entrar pro terceiro time.

Ó, tou dando o caminho das pedras de bandeja, marmanjos. Depois não digam que ninguém ensina.

Mas tem que ser esse misto, de cavalheiro e moderninho, sabendo encaixar as peças nos lugares certos. Não dá, por exemplo, pra falar com vozinha na hora de meter. O tesão vai ralo abaixo. Porque cama é lugar de gente grande. É só pensar como é o contrário: o cara compra Playboy pra ver que tipo de mulher? A pudica é que não é. Sexo é sexual, não fofo. Pelamordedeus. Agora, é ótimo poder fazer uma gracinha, ficar meio débil enquanto tá em casa de bobeira. E não medir esforços pra fazer o outro feliz. Que, na verdade, meu amor, essa história de cavalheirismo que as mulheres tanto prezam não passa disso: não medir esforços pra fazer o outro feliz. O que não significa ser capacho nem submisso. Abuso ninguém aguenta. Mas aí tem que conversar, numa boa, e achar o meio termo, sem levar nada a sério demais.

Aliás, acho que esse é o grande segredo pra qualquer relacionamento: nunca levar nada a sério demais. Claro que as duas partes têm que seguir a mesma cartilha, senão um fica achando que o outro não têm respeito e bla-bla-bla, mesmo não sendo nada disso. Tem que brincar com as coisas. Rir, meu amor. De si mesmo, principalmente. E deixar as birras passarem. É uma sensação incrível. Juro. Experimenta e depois me conta.

Nossa, meu amor, a vovó aqui tá falando pelos cotovelos hoje, hein? Quem diria. Tanto tempo sem vir aqui e agora esse post enorme, falando de um assunto que rende pelo menos um blog inteiro.

É que eu tou falando do que me faz feliz, meu amor. Tem coisa melhor do que isso?

Terça-feira, Maio 22, 2007

77. alimentando

Meu amor, eu relutei tanto! Juro que não foi de propósito. Mas tava eu em casa, trabalhando nos meus projetinhos, zapeando só pra não dar sono. Aí veio o tal filme. Você viu? Aquele filme do cara que come todo santo dia no McDonald's durante um mês inteiro. Supersize Me - A Dieta do Palhaço.

Crianças, é impressionante.

Eu relutei muito porque vi o trailler no cinema e achei meio nojento. Fora que o ex-ser da minha vida só falava de comida-e-nutrição, então qualquer assunto referente ao tema me deixava de saco mais do que cheio. Imagina. Ver um filme desses, que o cara se entope de porcaria só pra mostrar como esse monte de gordura e açúcar que a gente consome diariamente faz mal, e depois ter que aguentar um sujeito di-a-ri-a-men-te me atormentando por causa do meu sulflair querido ou outras coisitas do gênero que eu gosto de degustar esporadicamente?

Que fique bem claro: esporadicamente.

É, meu amor. Eu me cuido. Não sou um exemplo de alimentação 100% saudável, mas tou bem melhor do que a maioria das pessoas que eu conheço. Não sou idiota, meu amor. Venhamos e convenhamos. Se todo mundo sabe que aquele líquido preto indissolúvel e cafeinado que as pessoas ingerem dia após dia engorda, dá celulite, gastrite e cárie, por que euzinha vou me meter nessa? Nem, meu amor. Não sou radical, mas não sou burra.

Eu confesso, claro, tenho meus deslizes. Não tomo refrigerante há 11 anos mas a-do-ro uma tônica com limão de vez em quando. E biscoito. Sulflair, como eu já falei. E, de uns tempos pra cá aquela batata nova, deliciosa, Stax. Um inferno de tão viciante.

É difícil permanecer imune a essas coisas todas. Conheço poucos que conseguiram e não se tornaram eco-chatos. Porque tem essa, né, meu amor? Uma coisa é você resolver que quer ser uma pessoa saudável, comer bem, fazer exercícios. Outra é você se excluir do convívio social porque não come nem salada se não for orgânica e ainda ficar atormentando as pessoas que elas são irresponsáveis e burras com elas e com os animaizinhos e responsáveis pelo desandamento da humanidade.

Tem dó.

Mas enfim. Relutei porque fiquei com preconceito achando que o filme devia ser nojeto - porque o trailler era - e no final das contas não é nada disso. O filme é ótimo, meu amor. E dá uma vontade de nunca mais comprar sulflair...

Mas não... não pra tanto.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

76. mimos

Meu amor, ainda bem que nasci no século XX. Melhor. Ainda bem que nasci na segunda metade do século XX. Claro, porque as inovações pro dia-a-dia vieram todas depois da segunda guerra mundial. Pelo menos pra alguma coisa guerra serve. Sério, meu amor. Graças à guerra a gente pode usufruir de uma porção de confortos. Porque aqueles malucos ficam inventando armas e parafernalhas pra ajudar no campo de batalha e acabam inventando tralhas pra ajudar no batente doméstico.

Ou você achava que eles começaram a inventar eletrodoméstico porque tinham pena da mulher dona-de-casa?

É, meu amor, tudo acontece por interesse nesse mundo. Mas o interesse criou o aspirador de pó, a torradeira e o controle remoto, então eu dou um desconto. Porque eu, particularmente, sou fã convicta dessas parafernalhas modernas. Não sei o que era da vida das mulheres antes da máquina de lavar roupa com auto-aquecimento. Aliás, não sei o que é, porque aqui em terras tupiniquins a maioria delas ainda não se deu conta que água quente lava melhor que água fria. Isso sem falar do incrível, e ainda semi-desconhecido das donas-de-casa-verde-amarelas, vapor para passar roupas. Sem tábua, sem dor nas costas: sai um vaporzinho que, quase por mágica, estica a roupa pendurada no cabide em questão de segundos.

Eu seria capaz de ficar horas aqui enumerando os ítens do maravilhoso-mundo-dos-modernos-eletrodomésticos mas isso tá ficando mulherzinha demais, não?

Tudo isso, meu amor, é só pra deixar claro que eu nasci pra ser dondoca. Gosto de conforto, de mimo. O que não quer dizer que eu não saiba pegar pesado. Mas quem é que quer ser nivelado por baixo? Eu prefiro a máquina de lavar roupas ao tanque, pode ter certeza.

Então sou mimada sim, meu amor. Assumidamente. E bons-calos pra quem não for.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

75. mulher-mulher

Sabe que não há bicho mais anti-ético que mulher. É impressionante, meu amor, como mulher é sacana. Nisso eu invejo os homens. Já disse aqui e repito: gosto muito de ser mulher, tem inúmeras vantagens. Mas essa cumplicidade masculina, esse senso de colaboração com a espécie é ótimo. E mulher passa longe disso.

Vai dizer que nunca se deu conta disso, meu amor? Vai dizer que não concorda comigo que mulher é filha-da-puta com mulher e que homem protege homem. Talvez se a gente jogasse futebol. Mas a única coisa que mulher consegue fazer junto e com cumplicidade é ir pro banheiro, especialmente se for pra falar mal de outra.

Mentira. Tem outra coisa que mulher faz junto com cumplicidade. Sexo.

Nisso os homens se dão mal. Homem sempre tem esse desejo de botar duas na cama e não se dá conta que ele sempre acaba perdendo. Claro que se forem duas mulheres que não se entendem bem isso não vai acontecer, mas anta do homem que colocar duas mulheres que não se entendem bem pra meter. Mas partindo do princípio que pessoas que vão fuder juntar têm o mínimo de afinidade, o homem sobra. Porque homem é um bicho mais agressivo, mais rude. Quando é só homem-mulher, a dona acaba entrando na dele e cai na selvageria. Mas se tem outra dona junto o clima é outro. Porque mulher, mesmo a mais fancha, não tem pau, não tem por que invadir. Mulher é delicada, tem outro lance, compartilha essa delicadeza com outra na cama. E faz o ser humano do sexo masculino chupar dedo enquanto as donas se curtem e se acariciam.

Fácil de chegar nisso. As mulheres são criadas desde pequenas a ter intimidade umas com as outras. Se vêem nuas sem problema, se tocam, trocam carinhos. Isso não-sexualmente falando. Só por amizade. Os homens crescem com aquele papo-frouxo de homem que toca em homem é viado e que ver homem pelado é um horror. Claro que o corpo feminino é infinitamente mais agradável visualmente que o masculino, mas esse papo é balela cultural. Aí quando crescem os homens viram uns grosserões-invasores-selvagens e as mulheres umas fresquinhas-carinhosas-sensíveis. E se você bota duas dessas juntas na cama, acha que elas vão dar preferência a qual tipo de comportamento?

Meu amor, claro que não tou descartando o fato de mulher também gostar de selvageria. Mas mulher gosta de brincar de selvageria. E brincadeiras têm prazo de validade. Depois que acaba elas voltam ao normal, por isso a condição inicial prevalece. Fora que durante a selvageria a mulher às vezes desconcentra da brincadeira (que não lhe é inerente). Daí se for só homem-mulher ela recupera o clima e tudo certo. Mas se for homem-mulher-mulher a volta fica mais difícil porque elas têm outro ponto de vista pra compartilhar.

Evidentemente, meu amor, isso se aplica no caso homem-mulher-homem. Você consegue imaginar carinho nessa situação?

De qualquer forma, se não for pra falar mal de outra no banheiro ou pra fuder, mulher não topa mulher.

Meio óbvio, né? Se as mulheres fosse éticas e unidas como os homens você acha que o mundo estaria como está?

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

74. futilidades

É, meu amor. Eu fujo, fujo, fujo e acabo voltando pra cá. Mentira. Eu não fujo. Simplesmente ando sem inspiração. Não completamente, sabe. Mas ando com preguiça de falar dos outros. Porque eu falo de generalidades aqui, meu amor. Sempre falo. De como as pessoas escondem delas mesmas o que elas sentem e fingem pra todo mundo que não ligam pra coisas que elas realmente ligam. E às vezes eu perco um pouco a mão de ficar falando de gente. Porque, de alguma forma, com esses posts eu me torno uma espécie de antropóloga socio-cultural.

Tou importante hoje, não?

Enfim. A vovó aqui às vezes some sim por falta de saco de falar de seres humanos.

Mas esse blog foi feito pra falar mal de todo mundo. Essa é a graça da coisa. Rir da desgraça alheia. Aliás, meu amor, ontem na novela do Maneco, a personagem da Lilia Cabral dá uma gargalhada espetacular do problema da amiga e diz isso, que quando a gente tá na sarjeta a desgraça alheia é sempre divertida. Solidariedade, meu amor. E crueldade também. E sim, eu vejo novela. E mente você se disser que não vê. Você pode não acompanhar diariamente, não ser noveleiro de plantão, mas tenho certeza de que sabe do que as pessoas falam quando elas falam. A não ser que você não tenha televisão em casa. Eu passei três anos sem, então sei que isso existe. Mas eu sabia do que acontecia, porque não sou completamente alienada e lia jornal, mexia nessa coisa louca que é a internet.

Não dá pra ficar completamente alienado do mundo fútil, meu amor. É mais fácil você não ter idéia sobre o que se passa no oriente médio do que não saber o que está acontecendo dentro da casa do Big Brother.

Às vezes essas informações vêm sem a gente querer, eu sei. Já fiquei sabendo quem ia ganhar o Big Brother ouvindo um bate papo de uns cegos, num ponto de ônibus. Sim, meu amor, vovó está falando que cegos viam Big Brother. E adoravam. De qualquer forma, às vezes a informação vem goela abaixo. Pela revista Caras no consutório médico, pelo papo de botequim, pela visita à casa da sua vó. Mas você não está livre de saber e ter curiosidade sobre a Thelminha dando pro Jorge ou sobre o triângulo amoroso do Alemão com a Siri e a Fani.

É a vida, meu amor. E ela muitas vezes é mais do que fútil.

E vai dizer que você não gosta de futilidade? Vai dizer que você não gosta de uma fofoca, de saber da vida alheia, de dar uma folheada na Caras, de bisbilhotar o que não é da sua conta? É tudo futilidade, meu amor. No final das contas, novela e a vida do seu companheiro de trabalho nada mais são do que similares futilidades.

O que importa, meu amor, no final das contas, é entender que ser fútil faz parte do ser humano. Aliás, se duvidar, é a maior parte dele.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

73. pessoalidades

Ah, meu amor, as coisas sempre podem mudar. E muito. A não ser que você se tranque dentro de casa e não faça mais nada ou fique vegetando numa cama de hospital. Se bem que nem assim. Ou melhor, ainda sim as coisas podem mudar. Você pode morrer tomando um choque ou acordar do coma vegetativo dez anos depois e não ter mais vida.

Mas nem preciso falar de coisas trágicas assim.

É que minha vida mudou muito, meu amor. Muito. Comecei o ano passado - 2006, pra quem não se lembra mais - como uma mulher casada com um relacionamento aberto e completamente desamarrado, preocupada com dinheiro e com aquela coisa de o-que-é-que-eu-vou-fazer-da-minha-vida-pra-ganhar-dinheiro. O casamento era solto porque meu antigo ser era assim, meio frio. Parecia um gringo. Todo mundo achava. Ficava todo mundo estranhando como era possível estarmos juntos. Porque éramos muito diferentes. Mas essas coisas a gente nunca entende. Se muito daqui há uns bons anos eu vou entender. O troço da grana tem relação com o casamento. Não era uma coisa de faltar dinheiro em casa ou preocupações normais de dinheiro que qualquer relacionamento tem. É que esse ser tem um jeito todo particular de lidar com dinheiro, de achar que tudo tem que ser extremamente separado, sempre, cada um pagar o seu sempre, contar moedas e anotar empréstimos por mais pífios que eles sejam. E isso era muito frustrante pra mim. Não porque eu quisesse alguém pra me sustentar. Mas porque eu não entendia - e ainda não entendo, meu amor, pra ser bem honesta - como é que a palavra compartilhar pode existir nessa situação. Ele batia pezinho que era o contrário, que na verdade a gente tava era frisando amor e respeito e blá-blá-blá e no final das contas não estamos nos falando, pelo menos por enquanto, pra poeira baixar, e tudo o que temos de vínculo hoje são pendências financeiras. Grande herança de relacionamento, essa. E o troço do ganhar dinheiro é bem comum na vida de todo mundo. Eu que tava mais perdida que cachorro em dia de mudança.

Pois o ano rolou e eu arrumei um emprego bacana e me separei, o que acabou com o troço do dinheiro e do casamento frouxo. Tudo numa tacada só.

Pra você ver como as coisas mudam, meu amor.

Acho que eu nunca fui tão pessoal assim nesse blog. Nunca tinha contado nada de mim, assim, tão explicitamente. Mas é que veio essa coisa de ano novo, novas diretrizes, essa coisa toda que todo ano todo mundo faz, retrospectivas e afins pra fazer balanço do que deu certo e o que não e eu resolvi escrever sobre algo mais tangível.

O negócio do emprego, na verdade, não tem nada a ver com isso. O que eu ia falar de mudança é que elas acontecem pra quem vive. Não tem muito como fugir delas. Mentira. Tem sim. Não vivendo. E tá cheio de gente por aí que não vive. Que morre de medo de quebrar a cara se resolver viver. Eu tinha tudo pra quebrar a cara nessa mudança toda que rolou. Porque eu não apenas dei fim num relacionamento como iniciei outro com meu vizinho de corredor.

Sim, este foi o estopim.

Eu me apaixonei por meu vizinho, vivi um tempo como Dona Flor. Totalmente franca, sem enganar ninguém. Mas sempre tem uma hora que você tem que se decidir por uma vida ou outra. Em qualquer coisa que você faça. Tem que decidir sobre valores o tempo inteiro. Se vai devolver o um real a mais que te deram de troco ou se vai embolsar e pronto, tranquilamente. Se vai dar no primeiro encontro ou vai fazer cu doce. Se vai deixar de preguiça ou comprar os presentes só na véspera do natal. Eu tive que decidir se continuava com o ser que me deixava completamente solta e com quem eu me entendia mas que deixava algumas lacunas do que eu sempre esperei do comportamento de um companheiro ou se eu abandonava tudo pra viver com um outro ser, mais tradicional, que tem os mesmos valores que eu e que poderia me preencher mais, mas que eu ainda não tinha idéia se daria certo ou não.

Escolhas são assim, meu amor.

E quando eu contei pras pessoas a minha decisão todas me chamaram de corajosa. Porque mudar requer coragem. Mas nem sempre é bom ser corajoso. Porque ser covarde é mais fácil, dá menos trabalho, dói menos. Mas teve a outra metade de pessoas que não admiraram minha coragem. Me jogaram pedras por eu ter abandonado o certo pelo duvidoso. Até mesmo um amigo meu que por um bom tempo sonhou que uma paquera dele fizesse isso por ele e ficou frustrado e puto quando ela não fez e ficou frustrado e puto quando eu fiz.

Tem isso também, meu amor. Pra gente, tudo, pros outros, nada. E no cu dos outros é refresco.

Bom, foi uma loucura mas eu mudei tudo o que tinha pra ser mudado naquele momento. Com um medo do cacete, claro, porque quem disser que toma decisões importantes sem sentir medo é porque não toma decisões importantes. E nesse fusuê todo acabei me dando bem.

É, meu amor. Tou de bem. E prometo que o próximo post não vai ser tão pessoal, tá?

Sábado, Dezembro 16, 2006

72. mulherzinhas

Tem vantagens e desvantagens ser mulher. Já falei disso aqui. Aquela história dos peitos e dos dentes, da simpatia e da TPM. Se você não lembra dá uma fuçada aqui ou procura um neurologista. Ou pára de fumar tanta maconha. Não precisa parar de vez, até porque dizem que a maconha ajuda a viver mais. Uma velhinha que disse. 120 anos e fumava todos os dias. Morreu, claro. Maconha pode prolongar a vida mas não eterniza. Só o Bob Marley conseguiu esse feito.

Mas não era nada disso que eu ia escrever.

Eu tava escrevendo a respeito dessa coisa de ser mulher. Que eu já escrevi um post e falava que era ótimo ser mulher. Continuo com a mesma opinião. É foda ser mulher. Tem uma porção de vantagens, de sedução e tudo, que só mulher tem. Aliás, só mulher esperta tem. Porque tem muita mulher tapada e recalcada que não entende isso. Mas tem uma coisa que eu não gosto. Mulherzinha.

Odeio mulherzinha.

Sabe, essas que se juntam em bando pra ficar rindo histericamente, pra fazer chapinha e pra falar mal das outras. Principalmente as do mesmo grupo que não estão presentes. Essas que gostam de micareta e ficam reclamando que todo homem é igual e que eles não prestam.

Realmente não acredito que seja possível encontrar qualquer tipo de homem decente numa micareta. Ainda mais porque isso significa que ele realmente gosta de axé.

O fato é que esse tipo de mulher, histérica - não custa repetir - e excessiva, é sacal. E dificilmente entendem o que eu falei de ser mulher e saber usar a condição ao seu favor. Uma pessoa que deixa de sair na rua porque vai estragar o cabelo não pode ser uma pessoa capaz de arquitetar nada de verdade. Porque as aproveitadoras-mulherzinhas não podem ser consideradas sagazes no quesito. Elas sabem sim usar peitos e afins. Mas não tem controle do cérebro na maioria das vezes e só usam as armas pra batalhas superficiais.

Resumindo, dificilmente uma mulherzinha é dona da própria vida.

Uma mulher que cresce lendo Capricho e depois passa a ler Nova ou Marie Claire não pode ser mentalmente saudável. Isso é um problema sério de auto-conhecimento.

É por isso que eu sempre andei com homens. Porque, infelizmente, elas são a maioria. E por isso meus amigos homens falam que tá faltando mulher no mundo apesar delas já serem a maioria quantitativamente.

Ah, meu amor. Um dia eu abro um curso. Se bem que não sei se é possível ensinar a pensar...

Domingo, Dezembro 10, 2006

71. posse

Sabe, meu amor, eu ando muito sumida. Eu sei que isso não é novidade por aqui. Aliás, novidade por aqui é que o teclado fica configurado diferente só aqui no blogspot. Vai entender. Tenho que tomar cuidado pra não errar a acentuação nem escrever n"ao em vez de não.

Enfim. Eu tava dizendo que eu ando sumida. E, como sempre, tem um motivo.

Troquei de ser, meu amor.

Pode parecer esquisito, afinal eu tava sempre fazendo propaganda do ser-maravilhoso-que-eu-tinha e blá-blá-blá, sempre elogiando a liberdade e tudo mais, mas é isso mesmo. Percebi que essa coisa de liberdade não funciona. Não do jeito que eu tava levando. Não pra mim.

É o seguinte: eu tinha um ser com quem eu mantinha um relacionamento "semi-aberto-light", tipo plano de telefonia. E assim como um plano de telefonia eu achava que tava comprando gato mas na verdade eu tava era comprando lebre. A vovó explica por quê, meu amor. Porque começcou com uma historinha da carochina de não,-nós-não-vamos-realmente-abrir-nosso-relacionamento, nós-vamos-apenas-ser-sinceros-e-sem-culpa e blá-blá-blá. Claro, na prática não é assim que acontece. Quando você se sente livre pra fazer o que quiser - entenda, eu disse O QUE QUISER - a tendência é você fazer o que quiser.

Ou seja, o que era pra ser apenas um voto de sinceridade virou putaria.

E foi aí, meu amor, que a vovó aqui confirmou que não serve pra isso. Confirmou, eu digo, porque eu já tinha tentado um relacionamento assim e não funcionou. E essa história de não servir pra isso é porque eu confirmei que sou muito passional pra essas coisas e que certas coisas básicas de casal são ótimas.

Tipo o ciúmes.

Entenda, meu amor. Há uma distância grande entre ciúme e possessão. E essa diferença está no grau, na intensidade. Essa coisa de tomar conta, de cuidar, de querer por perto e sentir ciúme de outras pessoas é legal e saudável. Agora, essa coisa de controle e de histeria e de prisão é realmente uma merda.

Exemplo: sair pra almoçar sozinha com ex não é problema, desde que você realmente saiba que ele não te quer mais de volta. Porque sair com ex que ainda tá afim de te comer é botar lenha pra queimar. Não tem como não encucar. Não tem.

Mas enfim. Descobri que eu sou passional, sou mimada e que adoro ter alguém me dando limites.
É, meu amor. A vovó aqui faz pose de modernosa e na verdade é uma grande careta à moda antiga, querendo atenção. Pensando bem, todo mundo é assim, quer atenção.

Se não, é maluco. Ou mal-comido(a).

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

70. fofoca

É foda, meu amor.

Tou começando na apelação mesmo. E não vou pedir desculpas. Não tenho culpa se é assim mesmo. Foda.

É foda ter que viver em sociedade.

Não, não sou sociopata, nem hermitona, nem bicho-do-mato, nem nada disso. Não tenho vocação pra freira - isso, se você acompanha esse monte de bobagens que eu falo, já deve estar bem claro - nem nada. Mas eu detesto essa coisa de ter a intimidade compartilhada. Detesto. Você sabe o que eu quero dizer com intimidade compartilhada, não, meu amor? Essa coisa que chamam de fofoca.

Claro que fazer fofoca da vida dos outros sempre pode ser divertido. Mas quando é da nossa vida é foda.

Mas eu tou falando de fofoca, não daquelas fofocas feitas nas costas. Isso pouco me importa. Falação pelas costas e nada é a mesma coisa. Não tou sabendo, não me atinge. O grande problema é gente que quer dar conselho, se meter, sentir as coisas por você. Sabe? Gente que você nem dá muita confiança mas não tem o mínimo de simancol e acha que você tem que agir assim ou assado e diz isso como se fosse um absurdo se você não vivesse como aquele ser especial-e-perfeito vive?

Odeio isso.

E tou numa fase totalmente isso. Arrumei uma baita confusão - que pra mim não tem nada de problemático, eu só fiz as coisas de uma forma diferente do que o resto da humanidade costuma fazer, e deu certo - e agora todo mundo fica impressionada e não consegue manter a língua dentro da boca. E fala e fala e fala. E a vovó aqui é educada demais pra mandar tomar no cu, mas não tem problema nenhum de dar alguns belos cortes. E eu lá tenho que me comportar igual a alguém? Quem é modelo de vida realmente nesse mundo? Me diga, meu amor. Eu nunca conheci. Se existe alguém perfeito nesse mundo, que nunca tem problemas, que não faz merda, que não perde o controle, que não tem medo nem dúvida nem certeza absoluta do que está fazendo ao mesmo tempo então você me apresenta. Se bem que não. Não me apresenta esse ciborg não porque ele deve ser um saco.

O duro é que, por mais que se ligue um foda-se,-a-decisão-é-minha-e-eu-vivo-do-jeito-que-eu-quiser é difícil escapar de todas as pedradas. Dá pra levar uma decisão difícil, mas a pressão é cruel. Ou você acha que alguém no mundo poupa esforço antes de jogar uma pedra? Claro que não. Quem atira pedra atira sempre com vontade. Por mais que não demonstre. Claro que tem gente que atira com gosto, com tesão, com firmeza e outros que são mais tímidos. Mas atiram do mesmo jeito. Atira porque é natural, meu amor. Porque todo mundo acha que vive melhor do que o outro. Todo mundo acha que seus valores e seus sentimentos são os mais corretos. Eu acho, você acha. E se disser que não você precisa se conhecer melhor.

Enfim.

Até agora, que eu saiba, só tenho essa vida. Todo mundo fala de depois, depois, mas ninguém me provou nada. Eu que não vou pagar pra ver. Então, posso viver diferente de você, meu amor, mas vou viver o que eu tiver que viver.

E que venham as pedras. E foda-se.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

69. transas

Certas coisas, por mais combinadas que sejam, sempre são uma incógnita. Não tem jeito, meu amor. Quando a gente deve, treme. Treme mesmo. Não errei o verbo não. Eu estou tremendo até agora. Estou. Juro, meu amor. Porque tive uma noite tórrida. Bonito tórrida, não? Pois tive uma noite tórrida. Ah, se tive.

Sim, estou falando de sexo.

Sim, estou falando de sexo fora da relação.

O que a maior parte das pessoas chamaria de traição mas que no meu caso não se aplica porque eu e meu ser amado decidimos que a gente não queria viver nesse padrão social normal. Banal. Nós achamos. Pra não falar hipócrita. Porque tesão a gente tem em roupa, em carro, em música, em natureza. Por que a gente não teria em gente?

Então fiz um acordo com meu ser. Já faz tempo e rolou depois de muito papo. Porque eu sou ciumenta, meu amor. Ah, se sou. Deixa qualquer franga vir ciscar no meu terreiro que você não sabe como eu fico. Mentira. Não fico tanto assim. Senão não condiziria com o que nós acordamos. Se eu fosse barraqueira não teria acordo. Então eu simplesmente protejo o que é meu dando tudo de melhor que meu ser possa querer.

Inclusive sexo alheio. Se ele quiser, claro.

Acontece que pela primeira vez um dos dois fez o tal sexo alheio. Claro, meu amor, fui eu. Senão não tava aqui com o sol quase nascendo lá fora e o estômago roncando escrevendo como uma doida. Fui eu. E é isso que tá me encucando.

Eu sei que já tava combinado. Teoricamente a gente falou em conversar, ser sincero e tudo ok. Mas e o medo? Não tem como. Dá um medo. Um medo do cacete. Medo de machucar o ser que eu escolhi para passar o resto da minha vida. Medo de tudo que a gente construiu de repente ruir se a gente não conseguir sustentar as nossas promessas de sinceridade e lealdade.

Meu amor, eu só tou divagando, tá? Não liga pra mim não. A noite foi ótima, fomos pra uma boate de putaria pra ver como as GPs são, me diverti bastante, beijei na boca de dois seres deliciosos. Ao mesmo tempo, claro. Tudo na mais perfeita desordem. Sem motivos pra crise. O sexo a três foi estranho mas gostoso, não tem problema aparente.

Mentira. Claro que tem. Amanhã é outro dia e vou ter que encarar meu divã e minha palavra e ser uma vovó sensível e honesta mesmo se cagando de medo.

Sim, meu amor. A vovó aqui é esperta, com peitos e dentes e todo um comportamento pensado mas também treme na base quando ameaçam o cantinho sagrado dela. Tou pra conhecer culhão no mundo que não se cague todo com medo de perder o que ama.

É bobagem. E esse post não vai resolver porra nenhuma. Fica só a lição de que se você for fazer um threesome fora do seu relacionamento lembre-se que. Ah. Nada de lembre-se não. Desestressa e resolve uma coisa de cada vez. Pois.

68. rapidinha

Vou pular esse post pro próximo ficar mais interessante, tá, meu amor?

Segunda-feira, Setembro 25, 2006

67. desejo

Desejo é um troço foda de lidar. Ah, é, meu amor. Não tenha dúvida. Por mais descolada que a pessoa pode parecer ela sempre vai ter dificuldade de lidar com desejo. Porque o desejo pessoal é fácil. O desejo alheio é bom quando é correspondido. Mas quando o desejo parte de um alheio desinteressante aí o bicho pega. Como lidar com alguém que te deseja e você retribui - direta ou indiretamente - com asco?

Tou sendo maldosa sim. Pro caralho com as coisas fáceis. Podia sim falar, em vez de asco, algo como desinteresse. Mas isso é fácil de lidar. E não facilito as coisas por aqui não, meu amor. É asco sim. Aquele tio gordo, careca e babão que tenta de qualquer forma passar a mão na tua bunda. Asco sim.

Vai dizer que não é foda?

Lidar com desejo dos outros é complicado. E acaba, de alguma forma, mexendo com o nosso também. Mente quem se recusa a aceitar que não fica melindrado quando descobre que é desejado por alguém. Por mais asqueroso que seja o desejador. Fazer sucesso sobe à cabeça. Ah, se sobe! No caso masculino, às duas.

Piada clássica. Quase escrota.

Você pode ou não ter consciência, você pode ou não aceitar, mas quando está diante de alguém que você tem certeza que te deseja você se comporta diferente. E se apenas desconfia do desejo, ainda assim, se comporta diferente. No primeiro caso por lustre no ego. Afinal, naquele exato momento você está sendo admirado, desejado. E isso é ó-ti-mo. Vai dizer que não? No segundo caso você tenta concretizar o desejo alheio pra passar pro primeiro caso. Claro. Conquista.

Em ambos os casos os sorrisos rolam soltos, o corpo fica mais mole, as preocupações com a aparência mais firmes. Tudo pra não quebrar o encanto do desejo. Por mais que você não queira nada com o ser que te olha.

Não dá pra cair no conceito.

Eu, por exemplo. Sei que sou desejada pelo meu vizinho. Ele nem esconder esconde. A gente se dá bem e eu fico feliz dele ser sincero em relação ao desejo dele. O que não quer dizer que eu vou dar pra ele. Mas o ego ficou brilhando. E ficou inevitável - desde o ato de sinceridade - não desfilar em frente da janela, de onde ele me vê. Claro. Não vou aparecer de qualquer jeito diante do meu lustra-ego. Tenho que fazer a manutenção do brilho. Básica. E me divirto com isso. Dou sempre uma olhadinha de soslaio pra janela dele antes de entrar de vez em frente da janela. Pra saber se ele está ali ou não. Pra saber se entro andando de qualquer jeito ou se estampo um sorriso daqueles que já contei que sei muito bem dar e empino o peito, o abridor de portas. É quase institivo. Quase. Porque eu tenho consciência. Aí vira diversão.

Ainda bem que não tenho esses troços de ranso católico de culpa. Imagina? Não poder me divertir com isso?

Pobre dos mortais que não assumem suas diversões. Não sabem o que estão perdendo. Bom, problema deles. Minha missão nunca foi libertar o mundo da hipocrisia. Não puxar isso pra mim.
Vou mais é aproveitar esses desejos todos que são muuuito mais divertidos.

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

66. drama

Eu sempre fui dramática. Sempre. Em intensidades diferentes durante os anos. Mas sempre fui. No começo, acho que como todo mundo, inconscientemente e depois de um certo tempo e um certo tapa-com-luva-de-pelica de uma ex-amiga - que não virou ex por causa disso, foi por outra coisa - ficou consciente. Que eu era dramática. Não o grau. O grau de dramaticidade que a gente carrega dentro da gente só dá pra medir depois de um tempo. Por análise comparativa, meu amor.

E te digo, eu fui muito dramática.

Eu continuo sendo. Não tenho muito problema com isso. Encaro até numa boa. E em certas coisas inclusive ajuda. Fazer um draminha básico em algumas situações reverte as coisas pro seu lado. Mas tem que saber usar. Não é fácil usar drama sem parecer chata. Aí entra a consciência e o grau. Se você passa dos limites perde o poder de ação. Perde a atenção dos outros. Aquela coisa toda de perder a razão. Aí esquece. Porque ninguém gosta de dar bola pra gente dramática. Dá quando não nota bem o drama. Quando nota manda à merda.

Eu já fui muito mandada à merda. Sem nem notar. Porque quem manda um dramático à merda, meu amor, não manda na cara. Porque senão o ser faz mais drama. Quem manda um dramático à merda simplesmente o ignora. Ou diz que vai fazer o que o dramático diz e não faz. Claro. Porque não tá afim, porque não tem interesse. Até eu lido com dramáticos assim.

Mas tem uma coisa pior pro dramático do que ser mandado à merda. É dizer pra ele que ele é dramático. Mesmo que ele saiba. É o fim. Desabamento de mundo. Desmascaramento. Pros que sabem da sua condição é perder poder. E uma espécie de ofensa. Porque todo mundo que se sabe dramático esquece disso e é como ser apontado como é infrator. Passou da linha. Já quem não tem noção fica puto porque não aceita. E faz mais drama. E acredita que o mundo acabou e que aquela pessoa cruel está o julgando da forma mais terrível e desumana possível. E vai ficar mal, porque essa é mais uma oportunidade perfeita pra se fazer drama. Mesmo que ele não saiba conscientemente disso.

Hoje mesmo eu fui chamada de dramática. Nem acho mais que eu sou tanto. Mas fui. E por alguém nem tão próximo. Que riu quando disse. E eu passei direto na conversa, como se ela nada tivesse dito. Mas ficou. Claro. Bateu. Porque bate, meu amor. Tanto que eu tou aqui, horas depois, escrevendo um texto sobre isso. Já cogitei milhões de coisas que eu poderia e ainda posso fazer.

Uma é deixar pra lá. Que já fiz, na verdade.

Outra é mandar ela tomar no cu. Mas, apesar do prazer da coisa, não adiantaria nada. Eu estaria reforçando a acusação.

Eu poderia dar uma cotovelada no nariz dela e ver o sangue escorrer pelo chão metálico do ônibus, rindo. Mas ia ser difícil ter que conviver com ela diariamente depois disso.

Ou poderia escrever um post pra fazer o drama que eu quiser, anonimamente, e me divertir muito com isso.

Pronto. Agora chega que meu chá de cidreira vai esfriar.

Domingo, Setembro 17, 2006

65. química

Certas coisas são do tipo batom na cueca. Difícil de explicar. Quase impossíveis.

Química.

Química é uma coisa dificílima de explicar, meu amor.

Me diz como é que a gente pode saber se vai ou não ter tesão por alguém? Eu não sei como. Da mesma forma que eu também não tenho a menor idéia de como se controla o tesão por alguém. Não mesmo. Química. Terrível. Coisa de descontrole, sabe? Assim mesmo. Enlouquecedor.

Tenho um amigo de infância que é do caralho. Ele é uma pessoa do caralho. Lindo, educado, inteligente, bem-humorado, forte. E tem química. O que é o mais foda. Tem desde que a gente era pirralho e ele nem tinha beijado na boca ainda. É, descobri hoje que quando começou a rolar o tesão ele nem tinha beijado na boca pela primeira vez. Eu já. Sempre fui mais saidinha. Mais é bobagem de quem tá de onda. Mais é sacanagem mesmo. Sempre fui beeem saidinha, meu amor. E isso é uma verdade.

Pois a gente tem tesão no outro desde cedo. Uns 14 anos. Quando a gente começou a ter tesão. Enfim. A gente tem essa coisa e tem o desencontro. Claro. Não podia ser simples. Na adolescência eu queria namorar ele - ele, na época não sabia, porque eu era saidinha mas era come quieta, como, na verdade, não deixei de ser, mas de um jeito mais esperto do que na época - mas ele foi pro intercâmbio. Achei que ia beijar a boca dele quando ele voltasse mas ele voltou direto pra uma cidade do interior. E quando a gente se encontrava ele tava namorando ou eu tava namorando. E mais uma vez, como ele mesmo lembrou hoje, ele que travava por namoro. Eu agia como se não fizesse a menor diferença.

Eu não presto.

E então quando ele voltou pra nossa cidade eu me mudei. E quando a gente se encontrava aquela merda de namoros. A gente sempre ou na hora errada ou no lugar errado. Sempre. Mesmo agora, que eu tou com o ser da minha vida, perfeito e para sempre e que me dá a maior liberdade pra eu fazer a sacanagem que eu quiser, mesmo agora a gente conseguiu fazer alguma coisa errada. O tesão pintou na minha casa. E na minha casa não rola. Minha Edith não deixa.

Edith é a minha mente. Ela é sacal, como quase toda mulher. Fica me pentelhando de vez em quando. Ela ainda é bem distraída, canta muito, não vê a maior parte das merdas que eu faço então não ouço muita reclamação, mas ela existe e quando dá pra falar. Putaqueopariu.

Pois a Edith não deixou que rolasse nada aqui em casa. O tesão comendo solto mas. Porra. Na sala?

Eu tenho um compromisso meu com meu ser. De não fazer merda em casa. É coisa minha. Acho que meu ser nem ligaria tanto. Mas eu ligo. Porque é meu lugar com meu ser. Entende? É reservado. Ponto. Foda-se. Não precisa mais explicação. É coisa da minha cabeça. Ponto mesmo.

Então não importou que o tesão tava comendo solto. Não ia rolar. Porque a Edith começou a atormentar, xingar, gritar. Aí não tem tesão que não encha o saco. E o meu encheu. E eu mandei aquele homem enlouquecido embora.

Eu sou difícil pra dar, meu amor. Sou mesmo. Tem que valer muito a pena. Não dou por dar não. Porque tem que ser no teor do que eu tenho em casa. E pra isso tem todo um idealismo. É ridículo. Mas tem. Então eu só dou quando eu tou amarradona e a Edith vai dar uma volta e tudo fica uma meditação só.

A gente ri disso tudo. Ainda bem. Ele falou pra eu chamá-lo pra gente finalmente meter - é, a gente nunca conseguiu meter, apesar da tal química incontrolável - quando eu estiver com 80. Ele traz o Viagra e eu o vibrador. E a gente vai pra um motel pra não ter risco de estar no lugar errado pra meter. Aí acho que vai dar certo.

Pois eu sou assim. Fazer o quê? Minha libido eu não consigo controlar, mas minhas ações (vontades)... essas eu seguuro que nem touro. Na unha.

Mas dá licença que agora eu preciso de um banho frio.

Terça-feira, Setembro 05, 2006

64. apartamento

Eu moro em apartamento. Há alguns anos já. Porque morei em casa durante toda a minha infância e adolescência. Mas minha vida adulta foi marcada pela mudança total, entre elas a entrada em uma caixa gigante onde todo mundo se espreme, um em cima do outro.

Não tenho muitos problemas como morar em apartamento. Essa coisa de ter que lidar com vizinho quando você mora em casa tem também. Pura ilusão e bairrismo de quem mora em casa e quer dar uma de gostoso. Vizinho todo mundo tem. A não ser que você more no meio do nada. Aí, meu amor, você é um grande sortudo. Mentira. Nem sempre. Porque se te acontecer alguma coisa também vai ficar lá mofando sem ter pra onde fugir. Vai se fuder mesmo.

Desculpe o palavreado chulo, meu amor, mas é verdade. Em emerência, se a gente não descola ajuda, a gente se fode. Não tem outro termo.

Pois. Eu moro em apartamento já tem um tempo. E já passei por três diferentes, em três bairros diferentes e te digo, meu amor. Quando a gente fala do apartamento em si o bairro não faz a menor diferença. O bairro faz diferença da porta do prédio pra fora e, quando muito, da vista que você tem da janela. Eu digo quando muito porque tem muita janela que tem a grandiosa vista para a janela do vizinho, então grande merda.

Eu tenho vistão. Desempedida total, até o mar. E olha que o mar fica longe. Moro alto, bem alto. Penúltimo andar do prédio. E não tenho o menor medo de altura. E moro num bom apartamento, com tudo que eu preciso. Mentira. Ele poderia só ser um pouco maior. Acho que sempre apartamentos podem ser maiores e nunca vão ser. Enfim. Teria tudo para ser uma pessoa feliz e contente com seu apartamento.

Mas existem as obras.

Isso é uma coisa que quem mora em casa não sofre. Se teu vizinho resolve fazer obra, no máximo, você vai reclamar da sujeira na rua. Num apartamento tudo é problema. Absolutamente tudo. Neste exato momento, por exemplo, um ser desagradável corta alguma coisa que acredito eu que sejam azulejos, no andar de cima. Não. Estão dentro da minha cozinha. Pela intensidade do barulho, só pode ser. Há horas. Há dias. E o que pode a vovó aqui fazer? Manda pra casa do caralho? Não, não pode. Infelizmente não pode. Infelizmente o ser meu vizinho também paga condomínio e, sei lá se é proprietário ou locatário, está no direito dele de melhorar a própria casa. Malditos direitos. Se a gente não tivesse evoluído da idade média eu teria a possibilidade de ir até lá e degolá-lo com a cortadora de azulejos, mas a gente evoluiu. Fazer o quê.

E a vida vai continuar assim. Pelo menos enquanto eu morar em apartamento. Vou ter que tolerar barulho alheio, carrinhos de compras sozinhos no corredor, fulano com cachorro fedorento solto em cima de mim no elevador.

Se um dia o prédio explodir... deixa pra lá.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

63. superbacana

Tem uma dona-bebê que faz aula de defesa pessoal comigo. É, meu amor, faço aulas de defesa pessoal sim. Sou uma dona muito educada, muito simpática, com um sorriso e um par de seios de ouro e por isso mesmo tenho que me defender de espertalhões. O mundo é deles, certo? Mas eu falava da dona-bebê que faz aula comigo. 16 aninhos. Uma gracinha de tão inocente. Veio me dizer que não tem vontade de sair pra noitadas. Acha que é porque é muito novinha, depois começa.

Pois é disso que eu vou falar hoje.

Mentira. Não começa nada. Asas pra fora ou você nasce com ou esquece. Tem gente que nasce bicho-do-mato mesmo, não tem jeito. Não tem idade, imaturidade ou maturidade que mude. Se ela nasceu bichinha-do-mato vai crescer bichinha-do-mato. E não tem nada de errado nisso, claro. As pessoas que têm mania de se pressionar pra ser supercarismático, superestrovertido, superanimado, superfesteiro, supersociável, superagitado, superpopular. Bobagem. Pressão das brabas e à toa. É aquela coisa de querer conviver em sociedade. Ninguém precisa conviver em sociedade, meu amor. Convive porque quer. Claro que não é pra ser extremista e virar sociopata. Se você se botou no meio do povo que o trate bem. A questão é: não gosta de povo, não se mistura, porra! Não entendo como as pessoas não entendem isso.

Claro que certas ocasiões forçam até o mais hostil a ser bacana. Não tem jeito. Se você não nasceu milhonário, com a bunda pra lua nem mora numa casinha de sapê no alto de um monte no fim-do-mundo você vai ser obrigado a aturar pessoas. E daí, claro, o ideal é vestir a máscara de pessoa-simpática pra facilitar o trato e diminuir o contato. Sabe que se tem contato o atrito rola mais fácil, né? Então.

Pois falei pra dona-bebê que se ela não gostava de noitada agora dificilmente ela ia gostar mais tarde. Quem gosta, gosta. Fica torrando o saco dos mais velhos pra se enfiar nas salas escuras mal saiu dos cueiros. Tá no sangue. Tem que ter dom pra aguentar uma noite inteira de fumaça de cigarro, bêbados no cangote, sala escura e música alta. E tem que ser predestinado pra fazer tudo isso por mais de uma noite, no esquema-rave. Ah, tem. Não me diga que não. Sem comer direito, sem dormir direito, sem conforto? Pra um não-predestinado isso é quase uma cruscificação moderna.

Fiquei pensando depois em como a dona-bebê deve se culpar e se pressionar por não ser bacana. 16 anos, a gente sempre acha que tem que ser bacana. Mentira. Eu não achava. Mas eu era rebelde demais, eu não conto, não tou na massa. Deu vontade de falar meu-amor,-manda-esse-povo-bunda-tudo-à-merda-e-faz-o-que-te-der-
na-telha. Mas ela ia sorrir e não ia acreditar.

Daqui a alguns anos ela vai fazer isso por livre e espontânea vontade. Ou vai lotar a cara de cachaça pra ficar superbacana, superdescolada, superinfeliz.